Uáca uáca e feitiçaria


Epicuro! Epeiceuteó! O cara que mudou a santíssima trindade, ou ao menos meu modo de vê-la. Gritei umas três vezes o nome dele  saindo pelo portão de casa, isso fez meu amigo me olhar, ã, com cara de, de 'gol da argentina', deve ser essa a melhor definição para a expressão dele.


Amizade, liberdade e tempo para refletir. Eu sempre achei muito utópico conseguir definir a felicidade tão pura e simplesmente assim. Mas esse caras geniais não podem ser interpretados por meros mortais como eu, escrevam eles enciclopédias ou, como Epicuro, alguns rascunhos na parede, de nada adiantará para uma mente limitada.
E eu queria saber destas paradas tudo de felicidade, e quem é que aparece na minha vida? Um druida, de toca e cabelos cacheados, passava e deixava cheiro de felicidade, suas marcas no chão tinham o desenho da felicidade e, como um Pokémon, a única palavra que ele dizia era felicidade, ainda assim bem mais fácil de compreender que os gênios mais complexos.


Assim como Epicuro descontruiu a santíssima trindade (foi a da época dele, já passaram centenas de anos e já construiram outra) ele construiu a trindade dele, e não é brincadeira, foi o que o druida me disse. Todos os itens são incondicionais, a amizade deve ser buscada ao máximo, em todos, um estilo diplomático e carismático de ser. A liberdade deve consistir em não estar preso a dilemas pequenos, livre para ser feliz e feliz por ser livre. E não há tempo para refletir que não resulte de liberdade, mas também depende de amizades pois sozinhos não criamos nada. Todos os itens precisam uns dos outros e talvez eu não faça ideia de como explicar o que aprendi.
Talvez seja mais fácil, com a forma com o druida viva, contar como tudo acontece.


Amizade, sabendo que precisa de amizades, assim como o grego sabia, não lhe negava oportunidades de eventos, cercava-se de pessoas e não desanimava elas mesmo que percebessem que suas intenções iam além da companhia. As receitas e porções do druida eram muito cobiçadas, mas ele me disse que na diplomacia dissimular é viver. De todas as festas nas flores, dos eventos de druidas que me contou só me perguntou onde eu estive neste ano que já está na reta final. Em nenhum lugar festivo, tive que lhe contar, pois em uma única oportunidade eu dividi música com algumas pessoas e não era um momento de alegria que me deixasse aproveitar daquele dia.


Mas as amizades não podem comprometer nenhum dos outros itens, qualquer pessoa que tivesse a ousadia de desafiar tirar a liberdade ou o tempo para refletir do druida seria rejeitado de seu círculo, ainda não encontraram encantos mais fortes que suas magias, assim ele me ensinou que eu deveria viver.


Liberdade, esta custei a compreender, meus blábláblás eram fortemente contrários, classificavam a liberdade como mito pois sempre seríamos dependentes de várias coisas no mundo para sobreviver, e como humanos que somos, dependentes de pessoas também. Ignorância minha, a liberdade está em ter opções, se não ouver cachoeira então há rio, se não houver Sol haverá Lua e se não souber que tudo pode e deve ser substituível não saberá o que é liberdade.
O druida falava com pausas, ele é daqueles brincalhões que soltam fogos que explodem no ar. Enquanto o ouvia falar sobre liberdade lembrava de um filme, era sobre ladrões, acho que de bancos, mas eu não me recordo uma frase exata e sim a ideia: Não ame nada que não posso deixar para trás quando ouvir a polícia chegando.
Assim é a vida para ele, o essencial é aquilo que você pode ver em todos os espelhos do mundo, e a liberdade é saber que precisamos de várias coisas na vida, mas se tivermos apenas um de cada item então não temos nada, 'eu tenho sempre outro no bolso' - disse ele sabiamente.


Tempo para refletir, pois livre com sua liberdade e com as amizades à disposição, este poço de sabedoria que falava comigo didaticamente sempre se permitia ter momentos a sós, entre ele e seus pensamentos. Eu subestimava esse traço, por demais simples parecia, mas de nada ele vale sozinho, torna-se tempo inútil! Este espaço temporal só se justifica com as amizades e a liberdade, pois ele não é sua única alternativa - se fosse iria contra a liberdade - e precisa de amigos para o tornarem frutífero, - pois do nada, nada se cria.


Com a liberdade, a amizade e a reflexão explicados, questionei-o da necessidade de me ensinar, a que devo toda esta honra? Depois de um sorriso lindo, onde cabia escrever felicidade em todos os idiomas já falados pela humanidade, ele me falou de sua inteligência adquirida através dos séculos que viveu, de tudo que já assistiu neste mundo. Eu estava a caçá-lo, ele sabia, e quando descobriu o motivo, que eu acreditava que sendo ele feliz poderia pegar a felicidade dele para mim, resolveu que o modo mais simples de se livrar deste problema seria resolver o meu. Sábio, resolveu o problema que eu tinha para lhe poupar de ter que me resolver como problema, além de mago és um assistente social!



Estava tarde, as árvores já bocejavam e eu teria que partir. De repente passei a achar seu chapéu atraente, a grama perto de mim parecia mais verde, às árvores ao nosso redor estavam em primavera, mesmo que as mais distantes ainda fossem a imagem do inverno, e os pássaros abandonaram seu desejo de se recolher para, conosco, apreciar aquele momento único na minha vida.
_Isto, definitivamente, mostra que me compreendeu, meu caro tolo. O mundo não mudou, somente o modo como você conseguirá vê-lo.




Eu, bobo com tudo que havia recebido, não percebi ele se levantar e começar a caminhar para dentro da floresta. Como eu nunca mais o veria nestas mesmas condições, não seria o mesmo rio nem as mesmas árvores, certamente também não seria o mesmo místico, disse em voz alta que acreditaria que seria, ainda, ouvido por ele:
_Mas e o amor! Como posso fiar no amor se ele não faz parte da felicidade?
_Aceitamos o amor que acreditamos merecer. - disse-me uma árvore me mexia os olhos e boca como já  querendo descansar para dormir até o dia seguinte.
Eu a agradei, a abracei de braços abertos, agradeci a todos eles presentes, com entusiamos mas sem muito barulho para não despertá-lo. Depois de agradecer o quanto pude me retirei, tentado não incomodar.
Agora espero, que por todas as vidas, o mundo nunca mais seja o mesmo.
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2 comentários:

Maycon Marques disse...

Ficou com alguma vontadinha com o tema amor? Eu já tentei falar sobre ele aqui neste blog, mas seguindo a linha de pensamento desta postagem em questão acho que Kátia Abreu (Vida Simples, Abril) já tem um texto pronto:
http://vidasimples.abril.com.br/temas/muitas-faces-amor-739460.shtml

Blue Mind disse...

Ei cara, vc esta fazendo minha fama. Assim vai ficar difícil permanecer incógnito nessa floresta, já há muitos carregando um pouco de mim....
:)
Vc é um bom discípulo, Maycon Reis

Atenciosamente

O Druida.